Compreendendo o desenvolvimento canônico do Novo Testamento

Os cristãos primitivos dividiram os livros em quatro categorias. E a compreensão dessas categorias vai esclarecer um bom número dos equívocos sobre a forma de como o Canon se desenvolveu. Tais categorias estão sugeridas e estabelecidas pela bem conhecida obra do quarto século, do historiador Eusébio de Cesareia em História Eclesiástica.


canon do Novo Testamento

Como e quando a igreja primitiva reconheceu os 27 livros em nosso Novo Testamento sempre foi um tema fascinante. Há uma curiosidade inata dentro de nós sobre o por que desses livros serem considerados como Escritura e outros não. Infelizmente, o alto nível de interesse no cânon do Novo Testamento é muitas vezes misturado com um elevado número de equívocos sobre o cânon.

A internet está repleta de mitos, erros e mal-entendidos sobre a forma de como todo o processo de formação do cânon realmente aconteceu. Embora não exista uma solução rápida para tais equívocos, há no entanto uma chave essencial que realmente nos ajuda a evitar especulações. E essa chave é a compreensão das diferentes categorias de livros no início do cristianismo.

Os cristãos primitivos dividiram os livros em quatro categorias. E a compreensão dessas categorias vai esclarecer um bom número dos equívocos sobre a forma de como o Canon se desenvolveu. Tais categorias estão sugeridas e estabelecidas pela bem conhecida obra do quarto século, do historiador Eusébio de Cesareia em História Eclesiástica, no livro 3, capítulo 25.1-7:

XXV
[Das divinas Escrituras reconhecidas e das que não o são]1.Chegando aqui, é hora de recapitular os escritos do Novo Testamento já mencionados. Em primeiro lugar temos que colocar a tétrade santa dos Evangelhos, aos quais segue-se o escrito dos Atos dos Apóstolos.
2.Depois deste há que se colocar a lista das Cartas de Paulo. Depois deve-se dar por certa a chamada Primeira de João, assim como a de Pedro. Depois destas, se está bem, pode-se colocar o Apocalipse de João, sobre o qual exporemos oportunamente o que dele se pensa.
3.Estes são os ditos admitidos. Dos livros discutidos, por outro lado, mas que são conhecidos da grande maioria, temos a Carta dita de Tiago, a de Judas e a segunda de Pedro, assim como as que se diz serem segunda e terceira de João, sejam do próprio evangelista, seja de outro com o mesmo nome.
4.Entre os espúrios sejam listados: o escrito dos Atos de Paulo, o chamado Pastor e o Apocalipse de Pedro, e além destes, a que se diz Carta de Barnabé e a obra chamada Ensinamento dos Apóstolos, e ainda, como já disse, talvez, o Apocalipse de João: alguns, como disse, rechaçam-no, enquanto outros o contam entre os livros admitidos.
5.Alguns ainda catalogam entre estes inclusive o Evangelho dos hebreus, no qual são muito contemplados os hebreus que aceitaram Cristo. Todos estes são livros discutidos.
6.Mas creio ser necessário que exista um catálogo destes também, distinguindo os escritos que, segundo a tradição da Igreja, são verdadeiros, genuínos e admitidos, daqueles que diferentes destes por não serem testamentários, mas discutidos, ainda assim são conhecidos pela grande maioria dos autores eclesiásticos, de modo que possamos conhecer estes livros e os que com o nome dos apóstolos foram divulgados pelos hereges, alegando que se tratem seja dos Evangelhos de Pedro, de Tomás, de Matias ou mesmo de algum outro, ou ainda dos Atos de André, de João e de outros apóstolos. Jamais um só dentre os escritores ortodoxos julgou digno mencionar estes livros em seus escritos.
7. Mas ocorre que a própria índole do fraseado difere enormemente do estilo dos apóstolos, o pensamento e a intenção do que neles está contido destoa ainda mais da verdadeira ortodoxia: claramente demonstram ser invenções de hereges. Por isso não devem ser incluídos nem mesmo entre os espúrios, mas devemos rechaçá-los como inteiramente absurdos e ímpios. Continuemos agora nosso relato.

 Eusébio nos apresenta 4 categorias de livros que circulavam na cristandade até o seu tempo.
  • 1. Livros Reconhecidos ou Admitidos. 
Para Eusébio, estes são os livros universalmente reconhecidos já há muito tempo como canônicos. Estes incluem: os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo (incluindo Hebreus), I João, I Pedro, e Apocalipse (embora ele reconheça que este último tenha alguns detratores). Dito de outra forma, Eusébio reconhece que já havia um "núcleo" canônico (22 dos 27 livros) no cristianismo, já bem aceito, antes do século IV.

O que isso ainda nos indica? 
Alguns estudiosos continuam a afirmar que não havia cânon até o quarto ou quinto século. Mas a existência deste "núcleo" de livros reconhecidos mostra o quão mentirosa e ignorante é tal alegação. Estes livros tinham sido estabelecidos há gerações e nunca houve qualquer controvérsia significativa sobre eles.

  • 2. Livros Disputados ou Discutidos . 
Estes são livros que levantaram alguma discordância eclesiástica, mas ainda assim, são considerados como canônicos porque eles "são, no entanto conhecidos da grande maioria" (3.25.3). Não surpreendentemente, estes incluem os menores livros: Tiago, Judas, II Pedro, II e III João. A combinação destes livros reconhecidos e os livros em disputa, juntos, formam o nosso cânon atual de 27 livros.

O que isso ainda nos indica?
A categoria dos livros em disputa nos lembra que os limites do cânon ainda estava "impreciso" nos primeiros séculos do cristianismo e que demorou um pouco para que a igreja tivesse um consenso total em torno destes livros. O cânon não foi descartado do céu em tábuas de ouro, mas desenvolvido através dos processos normais de história para se chegar ao reconhecimento do mesmo. E tais processos nem sempre são claros e organizados.
  • 3. Livros Rejeitados ou Espúrios.
Quando Eusébio usa o termo "espúrio", ele não se refere que estes livros sejam heréticos, ele simplesmente indica que esses livros são rejeitados em termos de ter status canônico. Assim, estes livros são considerados essenciais (geralmente) ortodoxos, úteis e práticos, mas não tinham a autoridade de Escrituras. Tratam-se de livros como o Pastor de Hermas, o Didaquê, o Evangelho dos Hebreus, e a Epístola de Barnabé.

O que isso ainda nos indica? 
Algumas pessoas cometem o equívoco de pensar que devido a existência de um cânon, então isso significaria que a igreja nunca deveria usar quaisquer outros livros fora do cânon. Mas os primeiros cristãos não partilham esta opinião. Eles não viram problemas em fazer uso de livros como o Evangelho dos hebreus e, ao mesmo tempo, afirmar que apenas os quatro evangelhos são canônicos.

Clemente de Alexandria é um exemplo perfeito deste padrão. Ele apelou para todos os tipos de escritos, incluindo evangelhos apócrifos, mas, foi bastante claro em demonstrar que ele só recebeu Mateus, Marcos, Lucas e João como Escritura.

  • 4. Livros heréticos. 
Estes são livros teologicamente problemáticos, falsos e que têm pouco ou nenhum valor para a igreja. São "falsificações" que Eusébio considera como "inteiramente absurdos e ímpios" (3.25.7). Estes incluem livros como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Matias, os Atos de André , e os Atos de João.

O que isso ainda nos indica? 
Alguns estudiosos têm argumentado que livros como o Evangelho de Tomé foram tão populares como os evangelhos canônicos e que quase entraram no cânon NT. Outros ignorantes chegam a afirmar que existiam centenas de livros a serem aceitos. Mas, observe que Eusébio não concorda. Ele não coloca estes escritos na categoria de "disputados", e nem mesmo na categoria de "rejeitados", mas na categoria de heréticos. Para Eusébio, tais livros não são, e nunca foram, candidatos ao cânon.

  • Conclusão
Em suma, a compreensão destas quatro categorias é um passo essencial na remoção de equívocos e ignorâncias sobre o cânon do NT. Pode-se ter uma compreensão sobre o desenvolvimento do cânon por meio dessas categorias e entender corretamente que:

(1) Já havia um núcleo canônico de 22 livros muito antes do século IV.
(2) Houve controvérsia apenas para alguns dos livros menores. 
(3) Os cristãos continuaram a ter alguns livros não-canônicos como ortodoxos e úteis, embora não como Escritura, e 
(4) Alguns livros eram tão teologicamente absurdos e fora dos padrões que eles foram considerados como totalmente heréticos e sequer chegaram a ser citados como tendo qualquer pretensão a um cânon.


Referência bibliográfica:
1- História Eclesiástica - EUSÉBIO DE CESAREIA (entre em nosso grupo e baixe o livro gratuitamente)
2 - Canon Revisited (Crossway, 2012) - MICHAEL J. KRUGER




Texto traduzido e elaborado por Elisson Freire




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Resistência Apologética: Compreendendo o desenvolvimento canônico do Novo Testamento
Compreendendo o desenvolvimento canônico do Novo Testamento
Os cristãos primitivos dividiram os livros em quatro categorias. E a compreensão dessas categorias vai esclarecer um bom número dos equívocos sobre a forma de como o Canon se desenvolveu. Tais categorias estão sugeridas e estabelecidas pela bem conhecida obra do quarto século, do historiador Eusébio de Cesareia em História Eclesiástica.
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