Orígenes, o maior intelectual do terceiro século e erudito da igreja antiga.

O cristianismo que até então era criticado como uma religião de pobres e iletrados, tinha agora no século III, o maior intelectual da época, e certamente como afirma o teólogo especialista em patrística, Johannes Quasten, Orígenes era "O maior erudito da Igreja antiga".

Orígenes de Alexandria

      A figura mais ilustre do terceiro século, seja entre cristãos hereges ou pagãos, sem dúvida era Orígenes de Alexandria. Ele foi conhecido, à sua época, pelo apelido de Adamâncio (“o homem de aço”), possuindo uma erudição filosófica incomparável entre os Pais da Igreja sendo considerado o maior teólogo da antiga escola de Alexandria. O cristianismo que até então era criticado como uma religião de pobres e iletrados, tinha agora no século III, o maior intelectual da época, e certamente como afirma o teólogo especialista em patrística, Johannes Quasten, Orígenes era "O maior erudito da Igreja antiga". Com certeza o pai da teologia sistemática.

Pagãos, hereges e cristãos admiravam Orígenes. Sua instrução e conhecimento vastos contribuíram muito para o futuro da cultura cristã. Orígenes nasceu em Alexandria, por volta do ano 185, filho de pais cristãos devotos. Por volta do ano 201, seu pai, Leônidas, foi preso durante a perseguição de Septímio Severo. Orígenes escreveu ao pai, que estava na prisão, e o encorajou a não negar a Cristo por amor à família. Embora Orígenes quisesse se entregar às autoridades e sofrer o martírio com pai, sua mãe escondeu suas roupas e impediu esse ato zeloso, porém tolo. Orígenes levava uma vida austera, rigorosa, a ponto de interpretar ao pé da letra Mateus 19:12, chegando a se castrar como defesa contra as tentações carnais e fazer-se eunuco para Deus, atitude extrema que o impediu de ser ordenado sacerdote pelo bispo Demétrio de Alexandria pois a legislação canônica não permitia que um homem castrado fosse ordenado sacerdote. O historiador católico romano Paul Johnson em "História do Cristianismo" (Ed. Imago, 2001, pág. 75), qualificando-o de “fanático religioso”, relata que Orígenes “abriu mão de seu emprego e vendeu seus livros para concentrar-se na religião. Dormia no chão, não comia carne, não bebia vinho, tinha apenas um casaco e não possuía sapatos”.

Depois do martírio de Leônidas, sua propriedade foi confiscada e sua viúva foi deixada com sete filhos. Orígenes tomou as providências para sustentá-los, ensinando literatura grega e copiando manuscritos. Uma vez que muitos dos estudiosos mais idosos fugiram para Alexandria na época da perseguição, a escola catequética cristã tinha grande necessidade de professores. Aos dezoito anos, Orígenes tornou-se presidente da escola e deu início à sua longa carreira de professor, estudioso e escritor. Sua reputação entre os alexandrinos era tão alta que muitos pagãos e gnósticos passaram a frequentar a escola de catecúmenos para aprender diretamente do jovem mestre.

Por volta dos 30 anos, converteu Ambrósio, um homem rico de Alexandria que, pela sua pregação, abandonou a heresia valentiniana convertendo-se à ortodoxia da Igreja e que passou a financiar seus estudos e viagens. Passando por Roma, Cesaréia e Jordânia, Orígenes chegou a ser levado com escolta militar a Antioquia, onde a mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Maméia, desejava conhecer melhor o cristianismo. Por esta época, segundo nos relata Hans von Campenhausen em "Os Pais da Igreja” (Ed. CPAD, 2005, pág. 51): “o governador da Arábia solicitou ao seu colega egípcio e também escreveu ao bispo Demétrio uma carta amável pedindo que fosse permitido que Orígenes desse algumas palestras em sua presença”. 

Por volta dos seus 45 anos, ele é convidado pelos bispos gregos a ir a Atenas discutir com os grupos de heréticos. De passagem, visita Cesaréia da Palestina, onde os bispos Teoctisto e Alexandre o ordenam sacerdote. De volta a Alexandria, Demétrio, seu bispo, se irrita profundamente com esse fato e, reunindo um pequeno concílio, o exila do Egito e, pouco depois, o suspende da ordem sacerdotal. Orígenes vai então a Cesaréia, onde é bem recebido pelos amigos palestinos, que, a exemplo de outras igrejas do Oriente, não dão importância alguma à sentença de Demétrio de Alexandria. Entre suas muitas viagens, uma feita à Jordânia ele ainda reconduz o bispo Berilo de Bostra à ortodoxia e discute com um grupo de cristãos aniquilacionistas.

Como escritor extremamente prolífico, Orígenes foi capaz de manter sete secretários ocupados com seus ditados. Ele produziu cerca de duas mil obras, segundo o catálogo compilado por Eusébio, enquanto que Epifânio diz que Orígenes escreveu impressionantes 6.000 obras. O historiador Paul Johnson acima citado, nos diz que:
“parece que [Orígenes] trabalhava o dia inteiro e a maior parte da noite e era um escritor compulsivo. Até o intrépido Jerônimo, mais tarde, reclamaria: ‘alguém já leu tudo que foi escrito por Orígenes?’. Seus comentários às escrituras eram tão vastos que nenhum foi transmitido na íntegra. Alguns foram incluindo comentários sobre quase todos os livros da Bíblia, além de centenas de homílias.perdidos, outros sobrevivem como paráfrases drásticas”.(colchete acrescentado)
Sua obra Héxapla uma gigantesca versão de 50 volumes das Escrituras Hebraicas, foi uma façanha da crítica textual, pois tentou encontrar a melhor versão grega do Antigo Testamento. Em seis colunas paralelas, era possível observar o A.T. em hebraico, uma transliteração para o grego, três traduções em grego e a Septuaginta. A obra Contra Celso foi um dos mais importantes trabalhos apologéticos do cristianismo, pois o defendeu dos ataques pagãos. A obra De principiis [Sobre os princípios] foi a primeira tentativa de criar uma teologia sistemática. Nela, Orígenes examina cuidadosamente as crenças cristãs referentes a Deus, a Cristo e ao Espírito Santo, bem como assuntos referentes à Criação, à alma, ao livre-arbítrio, à salvação e às Escrituras.

Orígenes foi, em grande parte, responsável pelo estabelecimento da interpretação alegórica das Escrituras, que dominaria mais tarde a Idade Média. Acreditava que em todo o texto existiam três níveis de significado: o literal, o moral (que servia para edificar a alma) e o alegórico ou espiritual, considerado oculto e é o mais importante para a fé cristã. Porém, o próprio Orígenes desprezou o significado literal e o histórico-gramatical do texto, enfatizando o significado alegórico mais profundo. 

Orígenes tentou ainda relacionar o cristianismo à ciência e à filosofia de seus dias. Acreditava que a filosofia grega era a preparação para a compreensão das Escrituras e usava a analogia, mais tarde adotada por Agostinho, de que os cristãos "despojaram os egípcios", quando usaram a riqueza do conhecimento pagão na causa cristã (Êx 12.35,36). Ao aceitar os ensinamentos da filosofia grega, Orígenes adotou muitas idéias platônicas, estranhas ao cristianismo ortodoxo. A maioria de seus erros era causada pela pressuposição grega de que a matéria e o mundo material são intrinsecamente maus.

Devido a equívocos algumas de suas especulações lhe renderam a excomunhão, como por exemplo idéias sobre a preexistência da alma que muitos erroneamente confundem com reencarnação. Segundo ele toda pessoa já havia sido criada no céu como espírito e a terra funcionava como um tipo de provação às mesmas. A pessoa viria à terra de acordo com seu pecado em sua preexistência. Ela poderia receber a Cristo e ir para o céu novamente ou então rejeitá-lo e perder-se eternamente no inferno. Outro erro expressado atribuído a ele trata-se da apocatástase (a redenção e salvação final e universal de todos os seres). Esses e outros motivos levaram o bispo Demetrio de Alexandria a convocar o concilio que excomungou Orígenes. Embora Roma e a igreja ocidental tivessem aceitado a excomunhão, a igreja da Palestina e a maior parte do Oriente não a aceitaram. Eles continuaram consultando Orígenes devido à sabedoria, à erudição e ao conhecimento que ele possuía. 

Durante a perseguição promovida por Décio, Orígenes foi preso, torturado e condenado a morrer em uma estaca. Somente a morte do imperador impediu que a sentença fosse executada. Com a saúde debilitada devido à provação, Orígenes morreu por volta do ano 254 com quase 70 anos de idade. Ele fez mais do que qualquer outra pessoa para promover a causa da erudição cristã e para fazer com que a igreja fosse respeitada aos olhos do mundo. 

Os pais da igreja posteriores a ele, tanto do Oriente quanto do Ocidente, sentiram sua influência. A diversidade de seu pensamento e de seus escritos lhe rendeu a reputação de ser o pai da ortodoxia e da teologia, bem como das heresias.

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Obras consultadas:
1- A. Kenneth Curtis, J. Stephen Lang e Randy Petersen - Os 100 Acontecimentos mais importantes da História do Cristianismo. - São Paulo: Editora Vida, 2003.

2- Hélio - Vida e Obra de Orígenes - E-cristianismo

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Att: Elisson Freire

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Resistência Apologética: Orígenes, o maior intelectual do terceiro século e erudito da igreja antiga.
Orígenes, o maior intelectual do terceiro século e erudito da igreja antiga.
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