Inquisição Católica - Quantos Morreram?

É importante especificar a diferença entre a referência aos mortos pela Inquisição e os que morreram em outros eventos promovidos pelo catolicismo romano. A luz da pesquisa moderna somos forçados a aceitar um mínimo número de mortes pela Inquisição. Entretanto, essa mesma abordagem crítica e revisionista em seu devido contexto nos leva também a concluir um elevado número de mortes por parte do catolicismo romano em diversos eventos promovidos contra os não-católicos.


O proposito deste breve artigo é esclarecer alguns equívocos acerca dos dados levantados por aqueles que arriscam fazer um cálculo exato do número de mortes na Inquisição. Haja vista que se deve ter em mente uma devida especificação entre o que foi a Inquisição, daquilo que, seriam outras perseguições promovidas pelo catolicismo romano. 

Se do lado protestante podemos perceber uma ampliação do conceito envolvendo outros eventos para se ter um aumento dos cálculos, do lado católico no entanto, podemos constatar uma certa desonestidade revisionista omitindo ou reduzindo os cálculos segundo aquilo que melhor lhes favorecer no que se refere a assuntos relacionados ao termo Inquisição. Ou seja, fale sobre o número de mortes que o catolicismo causou em esfera secular ou eclesiástica, e logo o revisionismo reducionista aparece das fileiras romanistas alegando um mínimo numero de mortos na Inquisição, porém sem abordar outras execuções indevidas que foram promovidas pelo catolicismo romano. Por outro lado, mencione o termo Inquisição para um protestante, e logo outros eventos são relacionados para inflar os números.

Então, sobre este tema que já rendeu muita discussão, alguns sugerem que apenas alguns milhares de pessoas foram mortas durante a Inquisição, enquanto outros calculam dezenas de milhões de vítimas. Então, como podem as estimativas ser tão amplamente divergentes? Ou, como podemos chegar a uma conclusão honesta e mais aceitável?!

Algumas explicações devem ser abordadas para se distinguir entre a real Inquisição e o que poderíamos chamar de outros eventos promovidos contra os não-católicos. Isso em si nos garante fornecer um cálculo seguro e sem exageros.

1. Em primeiro lugar, em se tratando de número de mortos na Inquisição, a imprecisão dos registros históricos indica que os historiadores contemporâneos são forçados a extrapolar com base em informações limitadas que eles possuem.

Uma das primeiras contagens da Inquisição veio de um ex-secretário espanhol para a Inquisição chamado Juan Antonio Llorente (1756-1823). De acordo com Llorente, o número total de "hereges" queimados na fogueira durante a Inquisição espanhola totalizaram quase 32.000. Llorente acrescenta que outras 300.000 foram levadas a julgamento e forçadas a fazer penitência (cf. Cecil Roth, A Inquisição espanhola [WW Norton, 1964; reimpressão, 1996], 123).

Mas há uma considerável controvérsia sobre a precisão dos números fornecidos por Llorente. Como resultado, os historiadores devem decidir se querem ou não tomar esses números pelo valor que ele apresenta. Alguns acreditam que os números são muito baixos e deve ser ajustado para um cálculo mais elevado. No entanto, a maioria dos estudiosos modernos acreditam que seus números já são muito altos.

  • William D. Rubinstein resume o consenso dos estudiosos modernos:

Nada em toda a história da Igreja Católica fez mais do que a Inquisição para condena-la aos olhos dos racionais, pensadores esclarecidos, ou para dar-lhe a reputação de barbárie medieval que manteve em muitos lugares até recentemente. A Inquisição só foi formalmente abolida no início do século XIX. No entanto, também parece claro que o número de vítimas da Inquisição pode ser facilmente exagerado. Juan Antonio Llorente (1756-1823), inimigo feroz da Inquisição, cuja História Crítica da Inquisição de 1817-19 continua a ser a obra mais antiga que atacou tudo o que se relaciona com ela, estimou o número de execuções realizadas durante todo o período que a Inquisição espanhola existia, desde 1483 até sua abolição por Napoleão, em 31.912, com 291.450 "condenados a servir penitências.". . . Os historiadores mais recentes consideram até mesmo este número como muito alto (William D. Rubinstein, Genocide [Routledge, 2004], 34).

A abordagem conservadora da ciência moderna pode ser visto nos escritos de Henry Kamen, que é uma das maiores autoridades sobre a Inquisição espanhola. Seu trabalho em A Inquisição espanhola é publicado pela Yale University Press (quarta edição, 2014). A pesquisa de Kamen levou-o a concluir: 
"Podemos com toda a probabilidade aceitar a estimativa, feita com base na documentação disponível, que um máximo de três mil pessoas podem ter sofrido morte durante toda a história do tribunal" (. P 253).
As estimativas de Kamen podem ser muito baixas, mas eles representam a perspectiva geral dos estudiosos contemporâneos.

Os historiadores modernos, notam também que Espanha do século XVI (durante o auge da Inquisição espanhola) só tinha uma população total de cerca de 7,5 milhões de pessoas (cf. John Huxtable Elliott, Espanha e seu mundo, 1500-1700 [Yale University Press, 1989] , 223). Por conseguinte, a noção de que a Inquisição espanhola poderia ter causado a execução de dezenas de milhões de pessoas durante esse mesmo período de tempo, parece matematicamente insustentável.

2. Em segundo lugar, é preciso distinguir entre mortos diretos e vítimas consequentes.

Alguns historiadores anteriores parecem ter confundido o número de pessoas mortas com o número total de pessoas perseguidas pela Inquisição. Em outras palavras, quando se fala em "vítimas da Inquisição", eles não especificam entre os que foram executados e aqueles que eram apenas presos ou forçados a fugir por causa da perseguição em erupção. Obviamente, dependendo de como se define uma vítima, o número de vítimas pode variar amplamente. Ou seja, podemos afirmar que apenas dezenas de milhares foram executadas, mas, centenas de milhares foram vítimas de alguma forma.

David Plaisted (professor de ciência da computação na UNC) observa essa possibilidade em seu estudo intitulado "As estimativas do número de mortos pelo Papado na Idade Média". Ele afirma que o número de execuções durante a Inquisição espanhola poderia ser um pouco maior do que apenas alguns milhares. No entanto, ele reconhece que os números muito altos (fornecidos por alguns historiadores anteriores) podem incluir todos os que foram levados a julgamento, e não apenas aqueles que foram mortos. Além disso, algumas das maiores estimativas prováveis incluem não-protestantes (como populações judaicas e muçulmanas) que foram expulsos da Espanha, como resultado da perseguição. Se assim for, isso ajuda a explicar onde essas grandes estimativas se originaram.

3. Em terceiro lugar, é preciso distinguir, como eu disse acima, entre Inquisição e outros eventos.

A divergência de cálculos sobre o número de mortes também decorre da fusão ou exclusão da Inquisição com outros eventos da história europeia.  Em sentido restrito, o termo "Inquisição" refere-se a processos oficiais conduzidas pelas autoridades católicas romanas em lugares como Espanha e Portugal. Quando a questão é limitada a apenas essas inquisições, o número de executados provavelmente se resume a casa dos milhares ou dezenas de milhares.

No entanto, se o termo é usado em um sentido amplo, para representar toda a atividade Católica Romana quer seja de iniciativa secular ou eclesiástica contra os não-católicos por toda Europa ou além dela, então os números sobem drasticamente. Se o historiador inclui formas de tortura e morte que não envolvem um julgamento formal, juntamente com guerras religiosas e outras formas de violência Católica promulgada contra os protestantes e outros não-católicos (envolvendo também áreas fora da Espanha e Portugal), então pode-se facilmente falar em termos de milhões de pessoas que foram mortas.

David Plaisted reconhece esta realidade em seu estudo: a saber, que as reais grandes estimativas de protestantes mortos pelo papado ao longo da história europeia incluem, necessariamente, aqueles que morreram em conflitos religiosos como a Guerra dos Trinta Anos. 

Então ... quantos foram mortos durante a Inquisição?

Bem, nas palavras de Nathan Busenitz, autor do esboço original deste artigo, isso depende de como você está usando a palavra "Inquisição." E mesmo assim, a realidade é que ninguém sabe ao certo.

No entanto, se estamos simplesmente falando de execuções oficiais durante a Inquisição espanhola, a maioria dos especialistas contemporâneos iria colocar o número total de execuções entre 3.000 ou 10.000, talvez com um adicional de 100.000 para 125.000 morrendo na prisão como resultado de tortura e maus-tratos. A Inquisição no vizinho Portugal resultou em menos ainda essas mortes (cf. Joseph Perez, A Inquisição Espanhola[Profile Books, 2006], 173; RJ Rummel, Mortes pelo governo [de Transaction Publishers, 2009, 2009], 62).

Portanto, é importante especificar a diferença entre a referência aos mortos pela Inquisição e os que morreram em outros eventos promovidos pelo catolicismo romano. A luz da pesquisa moderna somos forçados a aceitar um mínimo número de mortes pela Inquisição. Entretanto, essa mesma abordagem crítica e revisionista em seu devido contexto nos leva também a concluir um elevado número de mortes por parte do catolicismo romano em diversos eventos promovidos contra os não-católicos. 

Paz em Cristo a todos.

Att: Elisson Freire





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Resistência Apologética: Inquisição Católica - Quantos Morreram?
Inquisição Católica - Quantos Morreram?
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