Os efeitos imediatos da Reforma Protestante

A Reforma como um contra-peso à secularização, e seu efeito contrarrevolucionário. (Por Antônio Vitor Barreto)


Por Antônio Vitor Barreto


A Reforma foi, finalmente, um contra-peso à secularização. A essência do Iluminismo encontrou nela sua maior adversária. Enquanto o Iluminismo estabeleceu o homem como centro de todas as coisas, a Reforma, especialmente a calvinismo, foi radicalmente teocêntrica; enquanto o Iluminismo encontrou um ideal na potência da razão humana; a Reforma declarou a influência da Queda na razão do homem; enquanto o Iluminismo buscou cada vez mais um mundo criado pelo homem e adaptado à “natureza”, a Reforma trouxe de volta, em termos dooyeweerdianos, o motivo religioso básico da Criação-Queda-Redenção.


O último milênio tem sido de constante embate entre a igreja e o estado. Fora desse contexto, é impossível entender algumas afirmações extravagantes e constrangedoras de papas em bulas como a Dictatus Papae e a Unam Sanctam; os papas reagiam à constante tentativa do poder secular de controlar a igreja. E de fato, houve um lento e constante processo de sacralização do poder do rei durante a Baixa Idade Média.

Nos séculos anteriores à Reforma, especialmente depois do Concílio de Constança, o poder da igreja foi cada vez mais neutralizado pelo poder do imperador. O Vaticano tornou-se cada vez mais um centro cultural, sujeitando-se à ascensão do Renascimento, e cada vez menos ousou desafiar a autoridade secular; tornou-se uma igreja pragmática, cada vez mais sincrética e influenciada pela força do pensamento pagão que insinuava-se. O Imperador Maximiliano I esperava juntar o poder secular e espiritual sobre sua própria pessoa. As universidades eram palcos de revoltas; seitas, uma substituição da moralidade pela moda, estética e técnica começou a criar raízes.

Erik von Kuehnelt-Leddihn, intelectual católico romano austríaco, vem concordar com os intelectuais protestantes e reconhece a Reforma Protestante como uma reação monástica tardia ao Renascimento e ao Humanismo.
"É importante lembrar, contudo, que a Reforma, ao contrário de um conceito obsoleto ainda sobrevivente em países de língua inglesa encontrando seu caminho em filmes e livros didáticos, não foi o começo do liberalismo (verdadeiro ou falso), nem qualquer coisa parecida com o cumprimento do Renascimento, mas uma reação monástica tardia contra o humanismo e o espírito da Renascença. Para Lutero, a Renascença (não menos do que o Humanismo) era um compromisso proibido entre Cristianismo e paganismo. (...)Porque a Reforma foi uma reação contra o humanismo e a Renascença, nós não deveríamos nos espantar que a Idade Média, em um certo sentido, tenha continuado no mundo reformado.”
["From de Sade and Marx to Hitler and Marcuse",pg. 55.]

O historiador católico romano Christopher Dawson reconheceria o mesmo efeito: a Reforma significou uma manutenção de 200 anos do modo de vida medieval, tão afetado pelo Renascimento.

“O avanço vitorioso da cultura da Renascença foi consideravelmente atrasado pela revolução religiosa representada por Martinho Lutero. O efeito da Reforma alemã foi a absorção da atenção e das energias a respeito de questões religiosas e a criação de desconfiança na razão humana. De fato, como disse Ernst Troeltsch, foi um retorno a modos de pensar medievais que produziram uma renovada preponderância do espírito medieval por dois séculos.” 
[“A Divisão da Cristandade”,pg. 98.]


Nesse ponto, paralelamente, o professor Nelson Lehman da Silva reconhece que:
 “os movimentos de reforma dos inícios dos séc. XVI, eminentemente representados por Martinho Lutero, também foram deflagrados como tentativas de desvencilhar a religião dos negócios mundanos e de voltar à original ideia cristã de ‘Duas Cidades’. Ainda que aqueles movimentos tenham eventualmente traído suas motivações iniciais, constituíram-se num último esforço de recuperação da distinção agostiniana.” 
[“A Religião Civil do Estado Moderno”, pg. 101.]

Parece, contudo, haver uma grande dificuldade para entender, entre os aspirantes a intelectuais, a realidade concreta e as dificuldades que envolveram os movimentos de Reforma. 

Na Suíça, poucos têm consciência da luta enfrentada pela igreja contra os poderes estatais, que quiseram aproveitar-se da Reforma para aumentar em poder. Embora fosse convidado pela cidade como conselheiro, Calvino sofria tentativas de ser controlado pelos magistrados, tendo sido, inclusive, expulso da cidade de Genebra por três anos. O conflito entre a Igreja de Genebra e os Magistrados torna-se ainda mais evidente quando lemos que, logo depois da morte de Calvino, os Magistrados exigiram para si o direito de excomunhão, em virtude da inconformidade da teoria da relação entre Estado e Igreja de Calvino com as estruturas sociais existentes. Para Calvino, tal direito cabia à Igreja, enquanto os Magistrados preferiram ficar com a opinião de outros reformadores como Zwínglio. Como Richard C. Gable escreveu:
“Em setembro de 1548, o Conselho da cidade determinou que os pastores podiam apenas exortar o povo, mas não excomungá-lo. Em dezembro, o Conselho prosseguiu em suas tentativas de usurpar o poder dando a Guichard Roux a permissão de receber a Ceia do Senhor, após ter sido proibido de fazê-lo pelo Consistório. O próprio Calvino foi admoestado pelo Conselho no dia 24 de setembro de 1548 por causa de uma carta que tinha escrito, criticando os magistrados de Genebra. Após vários protestos e esforços dos pastores, o Conselho finalmente concordou, em 24 de janeiro de 1555, em conceder ao Consistório os direitos que lhe cabiam conforme o estabelecido pelas Ordenanças Eclesiásticas de 1541. Basicamente, as Ordenanças Eclesiásticas estabeleciam o padrão pelo qual a Igreja funcionaria. Foram estabelecidos o horário e o número de cultos na cidade, bem como a frequência dos pastores aos encontros e outras regulamentações, tais como a excomunhão.” 
[“Calvino e Sua Influência no Mundo Ocidental”, pg. 90.]


O mesmo conflito teve a Inglaterra como palco, quando os puritanos cada vez tornaram-se mais marginalizados da uniformização requerida pelo estado. Finalmente, eles apoiaram o Parlamento para depois serem usados por eles. No fim da Guerra Civil, os puritanos tiveram de conformar-se com a secularização. Mas de todos os efeitos, um particularmente interessante foi o percebido pelo católico Leopold Ranke. Para ele, a Reforma Protestante, seguida pela Contra-Reforma tornaram possível a re-cristianização da Europa depois de dois séculos de intensa decadência religiosa.

“Não houve período em que os teólogos tenham sido mais influentes do que naqueles no fim do século XVI. Eles sentavam nos conselhos dos reis, e discutiam assuntos políticos do púlpito na presença de todo o povo – eles dirigiam escolas, controlavam esforços de aprendizado, e governavam o alcance da literatura. (...) Talvez possa ser afirmado que a violência ansiosa com que opuseram-se um ao outro, o fato de que cada uma das duas grandes divisões encontrou seu antagonismo em seu próprio corpo, essa era a causa da crescente e penetrante influência.” 
[“The History of the Popes”,pg. 42-43.]

A Reforma foi, finalmente, um contra-peso à secularização. A essência do Iluminismo encontrou nela sua maior adversária. Enquanto o Iluminismo estabeleceu o homem como centro de todas as coisas, a Reforma, especialmente a calvinismo, foi radicalmente teocêntrica; enquanto o Iluminismo encontrou um ideal na potência da razão humana; a Reforma declarou a influência da Queda na razão do homem; enquanto o Iluminismo buscou cada vez mais um mundo criado pelo homem e adaptado à “natureza”, a Reforma trouxe de volta, em termos dooyeweerdianos, o motivo religioso básico da Criação-Queda-Redenção. Nietzsche chegou a escrever:

“Se Lutero tivesse sido queimado, como Huss, o início do Iluminismo teria ocorrido um pouco antes, e mais esplendidamente do que podemos imaginar agora.”

Mas não apenas à secularização. A Reforma também teve um efeito contrarrevolucionário, quando a Alemanha e outros países ameaçavam ser reduzidos a conflitos revolucionários por seitas que desejavam estabelecer o Reino de Deus à força. Esse foi o caso das Guerras Camponesas, onde Lutero apoiou príncipes católicos e protestantes a católicos a que sufocassem as revoltas promovidas pelos anabatistas liderados por Thomas Muntzer. 

Muntzer, um ex-luterano, estudado até por Engels e outros revolucionários marxistas, tinha ideias muito estranhas, quase ateístas. Ele liderou um grupo já existente naquela região, os hussitas-taboritas, uma facção que desenvolveu-se a partir do movimento iniciado por John Huss um século antes, e que explodiu após sua morte na fogueira pela ordem do império. Huss, a despeito de opiniões corretas, tinha parte de seu pensamento moldado por tendências igualitaristas e populistas, nunca aceitas por Lutero. A raíz dessas ideias está no movimento franciscano radical, que anteriormente apoiou e influenciou John Wycliff, que, por sua vez, influenciou Huss. 

Os taboritas liderados por Thomas Muntzer acabaram atacando castelos, matando ricos, confiscando propriedades, além de outras práticas condenáveis, numa versão que precedia a atual teologia da libertação. Na Suíça também, uma outra onda anabatista, extremamente perfeccionista, foi um desafio para Calvino. Eles desejavam a separação total da igreja dos assuntos políticos e para eles Calvino escreveu o último capítulo do Volume IV das Institutas.

É muito importante para a Cristandade entender as razões pelas quais, depois da Reforma, o cristianismo voltou a sofrer. Que Deus possa iluminar sua igreja nessa tarefa e eu espero trazer essa questão à discussão num futuro próximo. 

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Resistência Apologética: Os efeitos imediatos da Reforma Protestante
Os efeitos imediatos da Reforma Protestante
A Reforma como um contra-peso à secularização, e seu efeito contrarrevolucionário. (Por Antônio Vitor Barreto)
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