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Resistência Apologética

O relato equivocado de Irineu de Lyon



por Thiago Dutra

Não é raro ver católicos romanos defenderem sua igreja usando os antigos, ou como são chamados, os pais da igreja. O problema está na maneira distorcida como eles enxergam os escritos deles, e na tentativa insistente de fazer com que pareçam o que não são, ou seja, católicos romanos. E mesmo quando um deles diz algo supostamente "romanista", não significa que ele esteja certo, pois há todo um contexto a se analisar por trás de suas palavras, seja ele Bíblico ou histórico. E é lançando mão dessa breve introdução que iremos fazer isso relacionado a um Apologista Cristão do segundo século, trata-se de Irineu de Lyon.

Ireneu ou Irineu de Lyon, em grego Εἰρηναῖος [pacífico] transliterado [Eirenaios], em latim Irenaeus, (c.a. 130 — 202) foi um bispo grego, teólogo e escritor cristão que nasceu, segundo se crê, na província romana da Ásia Menor Proconsular - a parte mais ocidental da atual Turquia - provavelmente Esmirna.

O livro mais famoso de Irineu, Sobre a detecção e refutação da chamada Gnosis, ou Heresia gnóstica, também conhecido como Contra Heresias (Adversus Haereses, c.a. 180 d.C.) é um ataque minucioso ao gnosticismo, que era então uma séria ameaça à Igreja primitiva e, especialmente, ao sistema proposto pelo gnóstico Valentim - e é essa obra da qual vou me valer aqui. Ignora-se a data de sua morte, que deve ter ocorrido no fim do século II ou início do século III. Apesar de alguns testemunhos isolados e tardios nesse sentido, é improvável que tenha terminado sua vida num martírio. Ele morreu por volta de 202 d.C. quando do reinado de Septímio Severo ou nas mãos de hereges. Ele foi enterrado sob a igreja de São João em Lyon, que foi posteriormente renomeada "Santo Ireneu" em sua homenagem. Porém, o túmulo e seus restos foram completamente destruídos em 1562 pelos huguenotes.

Depois desta pequena introdução, vamos direto ao ponto.

Coisa comum em vários debates com católicos romanos, é me deparar com a frase abaixo, de autoria de Irineu:
"Mas visto que seria coisa bastante longa elencar, numa obra como esta, (listar) as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma, quer por enfatuação ou por vanglória, quer por cegueira ou por doutrina errada, se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua autoridade preeminente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos'.”
(Irineu de Lyon, Contra as Heresias, Livro III, 3, 2)

Com essa citação, os católicos romanos querem reivindicar coisas como: papado, primado e supremacia de Roma, Pedro ser bispo e fundador da igreja de Roma (papa), e que somente Roma herdou dos apóstolos a Tradição apostólica pura.

Entretanto, conforme dito no título do meu artigo, Irineu, não sei se por inocência ou ignorância histórica - o que não é incomum nos pais da igreja, ver alguns deslizes e equívocos, afinal nenhum homem exceto os apóstolos pode ser considerado doutrinalmente infalível -, cometeu um erro histórico grave, sobre o qual vou dissertar agora, e dividirei em partes:

  • 1- ROMA COMO SENDO A MAIOR E MAIS ANTIGA IGREJA

Em seu relato contra os gnósticos, Irineu na tentativa de refutar os tais, evoca a autoridade apostólica herdada por Roma na época dele, e posso assegurar com toda propriedade que Roma dos tempos de Irineu não era nem de longe a religião sincrética e cheia de invenções e modismos pós, e extra bíblicos e apostólicos. Ele usa como argumento contra os gnósticos que alegavam ter recebido suas doutrinas perniciosas dos apóstolos não por escrito, mas por viva voz, de modo muito semelhante aos católicos romanos de hoje, já que a igreja dos tempos de Irineu recebeu a pregação dos apóstolos, e portanto sua Tradição poderia ser considerada absolutamente confiável - o que nada tem a ver com supremacia de Roma, tampouco o papado -, ao contrário dos hereges gnósticos. O problema está justamente em sua declaração acerca de Roma, já que:

  • a) A igreja de Roma poderia ser grande, mas não a maior nem a mais antiga, já que bem antes dela havia Jerusalém, berço da fé cristã, lugar natal da maioria dos apóstolos, e onde Tiago, o irmão do Senhor, exercia o papel de Bispo - Gálatas 1:17-19

  • b) Depois de Jerusalém, veio Antioquia, e foi lá que os seguidores de Jesus Cristo foram PELA PRIMEIRA VEZ, chamados de cristãos - Atos 11:26-29 -, tendo sua fundação da parte de Pedro e Paulo confirmada por ninguém menos que Inácio de Antioquia:

"Assim, não sejamos insensíveis à Sua bondade. Se Ele nos recompensasse conforme as nossas obras, certamente deixaríamos de existir. “Se Tu, Senhor, marcar as iniquidades, quem poderá ficar de pé?”. Devemos, portanto, provar a nós mesmos que merecemos o nome que recebemos (=cristãos). Quem é chamado por outro nome além deste não é de Deus, pois não recebeu a profecia que nos fala a respeito disso: “O povo será chamado por um novo nome, pelo qual o Senhor os chamará, e serão um povo santo”. Isto se cumpriu PRIMEIRAMENTE NA SÍRIA, pois “os discípulos eram chamados de cristãos em Antioquia”, QUANDO PAULO E PEDRO ESTABELECIAM AS FUNDAÇÕES DA IGREJA. Abandonai, pois, a maldade, o passado, as influências viciadas e sereis transformados no novo instrumento da graça. Permanecei em Cristo e o estranho não obterá o domínio sobre vós."
(Aos Magnésios, versão Longa, Cap 10 - Fonte)

É autoexplicativo.

Eusébio de Cesaréia, embora controverso, em algumas declarações - fiz um artigo sobre isso -, confirma as palavras de Inácio em sua carta aos Magnésios:
"Ao mesmo tempo adquiriram notoriedade Papias, bispo da igreja de Hierápolis, e Inácio, o homem mais célebre para muitos ainda hoje, segundo a obter a sucessão de Pedro no episcopado de Antioquia."
(História Eclesiástica, Livro III, XXXVI, 2)
Vamos ao ponto seguinte.

  • 2- PAULO E PEDRO COMO FUNDADORES DA IGREJA ROMANA

Esse ponto será bem mais extenso que o anterior, pois aqui irei não somente citar as Escrituras, como também alguns historiadores católicos que apoiam meu argumento de que Irineu, estava redondamente enganado.

Vamos primeiramente ao Testemunho da Bíblia. Um dos argumentos mais apelativos que eu ouvi outrora uma católica me dizer, foi o de que não devemos esperar tirar da Bíblia verdades históricas, (é mole???). Ora, tamanha estupidez, posto que que assim como os Livros de Reis e Crônicas relatam a HISTÓRIA dos Reis de Israel, da mesma forma, os Atos dos apóstolos e a carta aos Romanos, além de ter conteúdo doutrinário possuem conteúdo HISTÓRICO sendo a maior prova de que Pedro, NÃO ESTEVE EM ROMA COMO BISPO. (Prestem bem atenção, afirmamos que, ele, Pedro, NUNCA ESTEVE EM ROMA< COMO BISPO DAQUELA CIDADE >)
Atos e Romanos são o testemunho anterior ao de Inácio, considerado os mais confiáveis sobre este tema, posto que Atos dos Apóstolos nos narra os primeiros 30 Anos da Igreja Primitiva, e Lucas, seu compilador, foi testemunha OCULAR da maioria dos acontecimentos descritos nele. E quanto a Carta de Paulo aos Romanos, esta é tão importante quanto, pois Paulo não somente pisou em Roma, como PREGOU E MORREU EM ROMA.

Vamos ver se o testemunho dos apóstolos corrobora com a visão romana da história:
  • 1. A conversão de Paulo ocorreu provavelmente entre 34 e 37. Em Gálatas 1:13-18 Paulo diz que três anos depois da sua conversão viajou até Jerusalém e permaneceu com Pedro durante 15 dias; portanto, em 37 ou 40 Pedro ainda estava em Jerusalém.
  • 2. Em Atos 9 a 11 narra-se a atividade missionária de Pedro em Lida, Jope e Cesareia (Atos 9-11); portanto não estava por então em Roma.
  • 3. Depois da citada digressão, Pedro voltou a Jerusalém (Atos 11:2). Em Atos 12:1-3 Lucas nos diz que por esse tempo Herodes (Agripa) fez matar o Apóstolo Tiago, irmão de João, e encarcerar vários cristãos, entre eles Pedro. A milagrosa libertação de Pedro enfureceu Herodes Agripa (Atos 12:19). Ora bem, este rei morreu pouco depois (12:23). Segundo Flávio Josefo isso ocorreu durante o quarto ano do reinado do imperador Cláudio, ou seja em 45, e Pedro ainda estava em Jerusalém.
  • 4. Em Gálatas 2:1, Paulo diz que 14 anos depois da sua primeira visita à igreja de Jerusalém, retornou e esteve com Tiago (o irmão do Senhor), Pedro e João (2:9). Pedro ainda permanece em Jerusalém. Depois disso, Pedro retribui a visita, viajando até Antioquia (ocasião em que Paulo o repreende por judaizar); portanto se encontra ainda no Próximo Oriente, longe de Roma.
  • 5. Pedro tem um papel destacado no chamado "Concílio de Jerusalém" registado em Atos 15, a propósito do problema dos judaizantes, que teve lugar provavelmente por volta de 48 ou 49; portanto nessas datas também não se encontrava em Roma. Depois disso, possivelmente viajou pelas províncias orientais do império com a sua esposa (1 Coríntios 9:5).
  • 6. A carta de Paulo aos Romanos se data entre 54 e 57. Escreve-lhes para "confirmá-los" e "anunciar-lhes o Evangelho" (1:11-15), coisa estranha se se supõe que Pedro já estava ali ensinando, sobretudo quando se recorda que Paulo não queria gloriar-se do feito por outros (2 Coríntios 10:15-16), e de "não edificar sobre o fundamento de outro" (Romanos 15: 20). Além disso, no capítulo 16 Paulo saúda por nome 26 pessoas que conhecia na Igreja de Roma, mas não menciona em lado nenhum Pedro. Portanto, cabe pensar que por volta de 57 Pedro também não estava em Roma.
  • 7. Paulo foi feito prisioneiro e permaneceu em Roma entre 58 e 60 (ou 60 a 62), e permaneceu ali não menos de 2 anos (Atos 28:30). A partir dali escreveu Efésios, Colossenses, Filemom e Filipenses. Em nenhuma destas epístolas, que somadas dão quinze capítulos, menciona a presença de Pedro em Roma em finais dos anos 50 ou princípios dos anos 60.
  • 8. Depois Paulo foi libertado e visitou as igrejas do Oriente. Foi feito prisioneiro e martirizado por volta de 67. Pouco antes escreveu 2 Timóteo, onde diz expressamente, "Só Lucas está comigo", e envia saudações de vários irmãos ("Prudente, Lino, Cláudia e todos os irmãos"), mas novamente Pedro está ausente.

Do anterior cabe pensar que se as tradições acerca da morte de Pedro em Roma são corretas, a sua estadia e atividade deve ter sido relativamente breve, possivelmente coincidindo com a libertação transitória de Paulo (ou seja, entre 60 e 66 no máximo, antes de que se escrevesse 2 Timóteo). As epístolas de Pedro datariam de aproximadamente 64. Portanto, se bem que pareça muito provável que Pedro tenha pregado e morrido em Roma, não há evidência que tenha fundado a Igreja romana, nem que tenha sido o seu primeiro bispo. Portanto, desde o ponto de vista histórico a pretensão do bispo romano de ser o "sucessor de Pedro", com o primado, a infalibilidade e toda outra prerrogativa singular, carece por completo de fundamento sólido. Se trata de um gigantesco edifício construído sobre areia.


CONFIRMAÇÃO DA PARTE DE HISTORIADORES RENOMADOS E TEÓLOGOS CATÓLICOS:
Quanto à origem da comunidade cristã em Roma, ou uma igreja ali, D.A Carson se expressa da seguinte maneira:
“Não temos dados claros da origem da igreja em Roma nem de sua composição à época em que Paulo lhe escreveu. Por volta de 180 d.C. Irineu identificou Pedro e Paulo conjuntamente como fundadores da Igreja em Roma (Adv. Haer. 3.1.2), ao passo que tradição posterior menciona Pedro como o fundador e primeiro bispo da Igreja (e.g., o Catalogus Liberianus [354 d. C]). Mas nenhuma das duas tradições pode ser aceita. A própria carta deixa claro que Paulo era estranho à igreja em Roma (veja 1.10,13; 15.22), e é improvável que Paulo estivesse planejando o tipo de visita descrita em 1.8-15 a uma igreja fundada por Pedro. Nem é provável que Pedro tenha ido a Roma cedo o suficiente para ter fundado uma igreja ali”
(1997, p. 271).
Inúmeros eruditos católicos tem percebido a total ilógica desta tentativa católica frustrada de colocar Pedro em Roma, e tem voltado atrás em sua interpretação de que a “Babilônia” de onde Pedro escrevia em 1 Pedro 5:13 tratava-se de Roma. Dentre eles, podemos destacar Pedro de Marca, João Batista Mantuan, Miguel de Ceza, Marsile de Pádua, João Aventin, João Leland, Charles du Moulin, Luís Ellies Dupin e Desidério (Gerhard) Erasmo. Dupin, um historiador eclesiástico, foi além e disse:
“A Primeira Epístola de Pedro é datada de Babilônia. Muitos dos antigos compreenderam este nome como significando Roma; mas não aparece nenhum motivo que pudesse induzir S. Pedro a mudar o nome de Roma para o de Babilônia. Como poderiam aqueles a quem escreveu entender que Babilônia significava Roma?”
(Dupin, Preliminary Dissertation, Section IV)
Por exemplo, eles dizem que Evódio (o segundo bispo de Antioquia, sucessor de Pedro) começou a ocupar o cargo de bispo daquela diocese em 53 d.C, sendo que Pedro teria sido bispo dali de 45 d.C a 53 d.C (quando Evódio passou a assumir o cargo). Porém, pelas mesmas contas católicas, Pedro já estaria em Roma desde 42 d.C! Sabe o que isso significa? Significa simplesmente que durante oito anos Pedro esteve em dois lugares ao mesmo tempo! De 45 d.C a 53 d.C ele esteve sendo bispo de Antioquia, mas desde 42 d.C ele já estava como bispo em Roma!

Além disso, uma rápida pesquisa nos permite verificar a informação acima, quando procuramos a lista dos primados ou patriarcas de Antioquia, olhem quem é o primeiro da lista, e a data que ele deixou a cidade e seu episcopado lá:

LISTA DE PRIMAZES DE ANTIOQUIA
  • - S. Pedro o Apóstolo (C.45-c.53)
  • - S. Evódio (c.53-c.68)
  • - Santo Inácio I (c.68-100)
O restante da lista, a quem desejar conferir, pode ser vista (aqui).

Quanto a tentativa de colocar Pedro em Roma antes de 42 d.C, Suetonius Tranquillus, pagão, na Biografia do Imperador Cláudio, diz: “Judacos, impulsore Cresto, assidue tumultuantes Roma expulit”.

Traduzindo:
“O Imperador Cláudio expulsou de Roma os Judeus que viviam em contínuas desavenças por causa de um certo Cresto (Cristo). “

Ora, Cláudio foi Imperador desde o ano de 41 até 54. Logo, durante esses treze anos não era possível que Pedro residisse em Roma. No Capítulo 18 dos Atos dos Apóstolos, lemos que Paulo, depois do célebre discurso no Areópago, seguiu para Corinto, onde se encontrou com Áquila e sua esposa Priscila, recentemente chegados de Itália, pelo motivo de Cláudio Imperador ter mandado sair de Roma a todos os judeus. Ora, este encontro do Apóstolo deu-se no correr da sua segunda viagem apostólica, isto é, entre os anos de 52 a 54. Logo, ainda nesses anos Cláudio não permitia a permanência de judeus em Roma. Como ficaria lá São Pedro, que, como Apóstolo, devia necessariamente chamar a atenção geral sobre sua pessoa? Paulo só pode entrar em Roma por ser naturalizado Romano. Apologistas católicos usam a desculpa de que Pedro não era judeu, e sim cristão, contudo, um judeu convertido ao cristianismo NÃO DEIXA DE SER JUDEU POR CAUSA DISSO, e Pedro era ETNICAMENTE JUDEU.

Ainda outros escritores católicos e obras renomadas do catolicismo, endossam nossa argumentação e vão mais fundo ao afirmar que:
“Pedro só chegou a Roma nos últimos anos da sua vida, e a sua função de bispo não passa de uma lenda. Prova disso é que seu nome não aparece nas listas mais antigas da sucessão episcopal”
(Peter De Rosa, HISTORIADOR, “Vicars of Christ”)

"Então a Igreja primitiva {{{não olhava para Pedro como bispo de Roma}}}, nem, por conseguinte, pensava que todo bispo de Roma seria o seu sucessor... Os evangelhos {{{não criaram o papado}}}; porém o papado buscou apoio nos Evangelhos [mesmo que isso não seja possível]"
(Peter de Rosa, Vicars of Christ: The Dark Side of the Papacy (Crown Publishers, 1988), pp. 24-25.)

"É certo que Pedro foi a Roma e aí sofreu o martírio; não tem fundamento histórico que tenha estado antes ou tenha fundado essa igreja".
(Bíblia do Peregrino", da Paulus, anotada pelo Pe. Luís Alonso Schökel, pág. 2702, no comentário introdutório à Carta de Paulo aos Romanos.)

"Apesar do caráter fragmentário das informações historicamente comprovadas, pode-se aceitar que quase desde o início o cristianismo se difundiu rapidamente até a capital do império (cf. At. 2,10). A notícia histórica mais antiga sobre a presença cristã em Roma encontra-se na Vida de Cláudio (41-54), escrita por Suetônio no séc. II (Mirbt n. 3; cf. At 18,2). Contudo, não se pode considerar a comunidade romana como fundação nem de Pedro nem de Paulo, como o quer a tradição referida pela primeira vez por Ireneu (Adv. haer. III, 1,1; III, 2,3). Foi antes fundada por judeu-cristãos desconhecidos".
(Dicionário Patrístico e de Antigüidades Cristãs", edição conjunta da Vozes e da Paulus, 2002, pág. 1.076, em verbete da lavra de Basilio Studer, do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma)

Klaus Schatz afirma:
"Nós provavelmente não podemos dizer com certeza que havia um bispo de Roma na época, parece provável que a igreja romana era governada por um grupo de presbíteros, de quem muito rapidamente surgiu um oficiante ou ‘primeiro entre iguais’, cujo nome foi lembrado e que posteriormente foi descrito como ‘bispo’, após meados do século II"
(Klaus Schatz, Papal Primacy: From Its Origins to the Present. Collegeville, Minnesota: Liturgical Press, 1996, p. 4)

Garry Wills (historiador católico romano) escreve:
"O papado não veio à existência no mesmo tempo que a igreja. Nas palavras de John Henry Newman: 'Enquanto Apóstolos estavam na terra, não havia nenhum bispo ou papa'. Pedro não foi bispo em Roma. Não houve bispos em Roma até pelo menos CEM ANOS após a morte de Cristo. O próprio termo ‘papa’ não foi reservado para o bispo de Roma até o século V, antes disso ele foi usado para qualquer bispo”
(Wills, Garry. Why I am a Catholic. Boston, Houghton, Mifflin and Company, 2002. p. 54)

Robert Eno (teólogo católico e professor de história da Igreja) igualmente observa:
“A evidência (Clemente, Hermas, Inácio) nos aponta na direção de assumir que, do primeiro para o segundo século não havia bispo de Roma, no sentido usual dado a esse título. O ofício do individual mono-episcopos estava emergindo lentamente nas comunidades locais cristãs ao redor do mundo mediterrâneo”
(Robert Eno, The Rise of the Papacy [Eugene: W & S, 1990], 29)

Raymond E. Brown também aponta que:
"Obviamente, os cristãos do primeiro século não teriam pensado em termos de jurisdição ou de muitas outras características que têm sido associadas ao papado ao longo dos séculos. Nem os cristãos que viveram no tempo de Pedro teriam totalmente associado Pedro com Roma, uma vez que foi, provavelmente, só nos últimos anos de sua vida que ele veio a Roma. Nem seu respeito [dos primeiros cristãos] pela Igreja em Roma foi desenhado pelo martírio de Pedro e Paulo lá, ou por uma história posterior de preservação da fé da Igreja Romana contra a heresia”
(Responses to 101 Questions on the Bible [Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 1990], p. 134)
“O que eu estou dizendo é que essas listas de bispos foram preservadas para nós como as mais importantes figuras na história de uma Igreja particular, mesmo antes da terminologia de somente um bispo ser utilizada. Então, eu não estou tirando a importância de Pedro, ou sua estadia em Roma, quando eu apontei que é anacrônico pensar nele como um bispo local. De fato, uma vez que a função do bispo era administrar uma pequena congregação e viver entre eles”
(Responses to 101 Questions on the Bible [Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 1990], p. 132-133)

Quando um livro que tem o Nihil obstat e o Imprimatur da Igreja Católica como garantia de estar livre de erros doutrinários afirma expressamente que Pedro só esteve em Roma nos últimos dias da sua vida e que não havia bispo em Roma senão até meados do segundo século como a obra de Raymond Brown, é porque a coisa está feia mesmo para os apologistas católicos.

E por fim, Eamon Duffy, proeminente historiador católico arremata:
“Estas histórias foram aceitas como história real por algumas das maiores mentes da Igreja primitiva – Orígenes, Ambrósio, Agostinho. Mas elas são o romance piedoso, não história, e o fato é que não temos relatos confiáveis nem do final da vida de Pedro nem a forma ou local de sua morte. Nem Pedro nem Paulo fundaram a Igreja de Roma, pois havia cristãos na cidade antes de qualquer um dos Apóstolos por os pés lá.Também não podemos supor, como Irineu fez, que os Apóstolos estabeleceram uma sucessão de bispos para continuar seu trabalho na cidade, pois todas as indicações são de que não havia um bispo único em Roma por quase um século depois da morte dos Apóstolos. Na verdade, para onde quer que olhemos, os contornos sólidos de uma sucessão de Pedro em Roma parecem obscuros e frágeis"
(Eamon Duffy, Santos e Pecadores: A História dos Papas [New Haven e Londres: Yale University Press, 1997]. p 2)

CONCLUSÃO

Uma das táticas mais usadas pelos apologistas católicos em seus argumentos é a mesma usada pelos militantes da esquerda, a saber a DIALÉTICA, que é a capacidade - e o cinismo - de pensar e defender duas coisas ao mesmo tempo de acordo com a conveniência. Porque eu digo isso? Muito simples, basta observar que quando um dos "pais da igreja" diz alguma coisa que pareça favorecer Roma, subitamente os apologistas católicos tomam seus escritos como absolutamente certos, mas, quando o testemunho dos 'pais da igreja', expõe algo contrário a Roma, então imediatamente os católicos passam a detonar tais escritos afirmando que estes estão errados e sua opinião não deve ser considerada, ou então somos questionados e considerados como falaciosos por querermos contrapor a palavra deles quando eles afirmam algo que comprometa alguma objeção romanista. Claro, isso quando não nos acusam de estarmos adulterando o que dizem os pais da igreja. E quando nossas fontes vem de dentro da agremiação deles, muitos deles debocham, e usam de falácia genética, ou seja, desconsideram um argumento ou fonte baseado em origem, não na informação por ela trazida, e movidos pelo espírito falacioso da SOLA ECLESIA​ debocham e chamam os próprios prelados católicos romanos de "modernistas", como já vi católico romano fazendo, comigo inclusive.

Mas independente destes antigos escritores patrísticos estarem certos ou não, sendo que muitas vezes estão errados, afinal, não são infalíveis, suas palavras devem ser analisadas de forma imparcial e metódica. Se relacionado a doutrina, devem ser analisados pelas Escrituras, se relacionado a fatos e acontecimentos, que suas palavras sejam postas em paralelo com a história, seja ela secular ou Eclesiástica. 

E ninguém pense - especialmente os católicos romanos - que estou falando isso por discordar do catolicismo, meu argumento está desprovido total e completamente de quaisquer parcialidades referentes a minha Confissão de Fé Protestante, isso eu garanto. E supondo - eu disse SUPONDO - que Pedro fosse fundador da igreja em Roma, isso também não confirmaria o papado em hipótese alguma, já que, como demonstrei acima, ele foi líder da igreja em ANTIOQUIA considerado fundador da comunidade cristã ali, e se fundação equivale a PAPADO, isso significa que os patriarcas de Antioquia são papas PRIMEIRO QUE OS ROMANOS, pois pelas palavras de João Crisóstomo, Pedro deixou um EQUIVALENTE A ELE EM ANTIOQUIA, na pessoa de Inácio:
"Mas, como eu já mencionei de Pedro, tenho percebido uma quinta coroa tecida a partir dele, e isso é PORQUE ESTE HOMEM [INÁCIO DE ANTIOQUIA] SUCEDEU AO OFÍCIO DEPOIS DELE. Pois, quando alguém tira uma grande pedra de uma fundação, antecipa por todos os meios a introdução de uma equivalente a ela, para que todo o edifício não seja estremecido e então se torne pouco firme. Dessa forma, quando Pedro estava prestes a partir daqui, A GRAÇA DO ESPÍRITO INTRODUZIU OUTRO PROFESSOR EQUIVALENTE A PEDRO, para que o edifício já concluído não possa ficar menos firme por causa da insignificância do sucessor."
(Homilia sobre St. Inácio, 4)
Daí perguntamos então, Inácio foi papa? Não respondam pra mim católicos, respondam pra si mesmos.

Tão verdade é que fundação e papado ou primado Universal NÃO SÃO A MESMA COISA, que o mesmo Irineu que afirmou que Pedro e Paulo fundaram a comunidade cristã em Roma se levantou contra o bispo de Roma de sua época, Vítor, o qual foi severamente repreendido, conforme relata Eusébio de Cesaréia em História Eclesiástica, Livro V, XXIV. Sobre isso, Ignaz Von Dollinger, renomado historiador católico romano no século XIX, declarou que:
"A tentativa do papa Vitor, de compelir as igrejas da Ásia Menor a adotar o costume romano ao excluí-las de sua comunhão provou ser uma FALHA."
(O papa e o Concílio Pág 66)
E finalizo com as palavras de Agostinho, e Jerônimo, respectivamente:

"...todas as cartas de bispos que foram escritas ou que estão sendo escritas SÃO SUSCEPTÍVEIS DE SEREM REFUTADAS se há alguma coisa nelas contidas que se desvia da verdade”
(Do Batismo, Contra os Donatistas, II, 3)

"Isto é para certificar de que, COM EXCEÇÃO DOS APÓSTOLOS, tudo que é dito mais tarde DEVE SER REMOVIDO E NÃO MAIS TARDE CONTER FORÇA DE AUTORIDADE. Não importa o quão santo alguém possa ser após o tempo dos apóstolos, não importa quão eloquente, ELE NÃO TEM AUTORIDADE, pois 'em seu registro dos povos e príncipes o Senhor fala daqueles que nasceram nela."
(FC, Vol. 48, As Homilias de São Jerônimo: Vol. 1, Sobre os Salmos, Homilia 18 (Washington D.C.: The Catholic University of America Press, 1964), pp. 142-143)

Resumindo: 
O QUE IMPORTA, NÃO É QUEM DISSE, MAS SIM, O QUE FOI DITO.

Um pai da igreja X ou Y dizer algo, não é por si só suficiente para sustentar que ele esteja certo, até que, suas palavras sejam postas a prova, e sua fidedignidade comprovada. Enquanto os apologistas católicos não entenderem uma verdade tão simples, serão para sempre reféns do cabresto religioso e da desonestidade intelectual.

Portanto, quer os católicos admitam ou não, IRINEU ESTAVA ERRADO, ponto final.

Deus abençoe a todos.

Att: Thiago Dutra

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